<T->
          Moby Dick 

          Herman Melville
           
<F->
Impresso Braille, em 2 partes, 
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, 1 edio, 
Editora DCL -- So Paulo -- 2005
<F+>

          Primeira parte

          Ministrio da Educao
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro 
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~, 
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<p>
          Copyright (C) 2005 do 
          texto: Fernando Nuno 
          Rodrigues
          Copyright (C) 2005 da 
          edio: Editora DCL -- 
          Difuso Cultural do livro
          
          Diretor Editorial: 
          Raul Maia Jr.
          Editora Executiva: 
          Otaclia de Freitas
          Editor de Literatura: 
          Vitor Maia
          
          Editora DCL -- Difuso 
          Cultural do Livro Ltda.
          Rua Manuel Pinto de 
          Carvalho, 80 -- 
          Bairro do Limo
          CEP 02712-120
          So Paulo -- SP
          Tel.: (0xx11) 3932-5222
          ~,www.editoradcl.com.br~,
          ~,dcl@editoradcl.com.br~,
<p>
                                I
<R+>
 Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
<R->

 Nuno, Fernando
  Moby Dick / Herman Melvile ; adaptador Fernando Nuno ; Ilustrador Nelson Cruz. -- 1. ed. -- So Paulo : DCL, 2005. -- (Coleo correndo mundo) 

  Ttulo original: Moby Dick
  ISBN 85-7338-796-3 (coleo)
  ISBN 85-7338-941-9 (brochura)

  1. Literatura infanto-juvenil I. Melville, Herman, 1819-
 -1891. II. Cruz, Nelson. III. Ttulo. IV. Srie.  
 
 04-7106        CDD -- 028.#e
<p>
<R+>
 ndices para catlogo sistemtico:
<R->
  
  1. Literatura infanto-juvenil 028.#e
  2. Literatura juvenil 028.#e
<p>
                             III
 Fernando Nuno

  Dona Cleonice, minha professora da quarta srie, contou na classe a 
histria de *Moby Dick*. Fiquei impressionado com a viagem do capito 
da perna de pau (ou melhor, de osso de baleia) dando a volta ao mundo 
num navio de nome estranho s para se vingar do cachalote branco. 
Logo percebi que a histria representava bem mais que isso. Aprendi 
que devemos proteger os grandes animais dos mares, como as baleias e 
os cachalotes, para que o nosso planeta continue a ter sade. E, no 
fim das contas, a Terra j fornece tantos tipos de alimento 
deliciosos; para que serve caar baleia como alguns pases ainda 
fazem? Por qu? Recontar os aspectos mais importantes da histria de 
Moby Dick  muito gratificante. J editei tantos livros, mas sinto 
prazer especial em apresentar aos novos leitores os clssicos, isto 
, aquelas obras que nunca perdem o valor. Os livros da coleo 
*Correndo Mundo*, em que desenvolvo esse projeto, receberam o ttulo de 
Altamente Recomendvel da FNLIJ (Fundao Nacional do Livro Infantil 
e Juvenil).

  Querida leitora, querido leitor, preste bem ateno  histria que vamos contar neste livro. Ela pode nos mostrar muitas coisas que sero importantes na vida.
  Um grande abrao do 

 Fernando Nuno

 Nelson Cruz

  Desde que comecei a lidar com as cores, ouo dizer que os vermelhos, os laranjas e os amarelos so cores quentes e que os azuis e suas variaes so cores frias. Sinceramente ou sensorialmente, nunca assimilei bem essa definio. Para mim, cores so cores e, 
                                V
no ato da criao, o autor transfere sua emoo adicionando temperatura a elas, sejam quais forem. Mas a contradio  um terreno frtil para a criao e tambm gera possibilidades. Para pintar as ilustraes deste livro decidi usar os azuis, sempre misturando azuis com amarelos, para expressar a frieza e a obsesso do capito Acab na sua perseguio pessoal para eliminar Moby Dick. A combinao do desenho com tinta nanquim, e na pintura com tinta acrlica procurei acrescentar ritmo, textura e movimento s cenas, elementos que considerei inseparveis da alucinao desse personagem que at hoje nos encanta, perturba e embaraa.

  Para Marilda, Nino e Ceclia, presentes em cada detalhe desta aventura.

 Nelson Cruz
  
<R+>
 Uma histria para fazer pensar
<R->

  Este volume da coleo *Correndo Mundo* traz uma histria criada h 
mais de cento e cinqenta anos por Herman Melville, um escritor dos 
Estados Unidos.  a histria de Moby Dick, o fantstico cachalote 
branco que devorou a perna do capito Acab quando este tentava 
ca-lo. Agora, apoiado em sua perna de osso de baleia, Acab tem como 
seu maior objetivo capturar o grande cachalote, que  um verdadeiro 
terror dos mares.
  A histria se baseia em fatos reais. Naquela poca, as baleias e os 
cachalotes eram perseguidos e caados cruelmente por navios baleeiros 
em todos os oceanos -- no existia ainda a conscincia ecolgica que 
se desenvolveu nas ltimas dcadas. Hoje, sabemos que os animais 
marinhos devem ser protegidos e preservados para que o planeta Terra
continue a ser um lugar cheio de vida. No mnimo, 
                             VII
esses animais representam uma parte importante da cadeia alimentar e sua falta 
produziria grandes prejuzos a todas as formas de vida, inclusive aos 
seres humanos.
  Ler *Moby Dick* nos leva a pensar nessa e em muitas outras 
questes, que os textos complementares no final deste livro nos 
auxiliam a perceber com mais ateno.
  A coleo *Correndo Mundo* apresenta as principais obras da 
literatura sobre outras terras, outros mares e outras gentes, 
recontadas especialmente para tornar mais acessvel conhec-las e 
l-las pela primeira vez, preservando seu encanto e atualidade.
 *Moby Dick*, belamente ilustrado por Nelson Cruz,  um dos volumes mais 
significativos da coleo.

 Fernando Nuno
<p>
  Acab, capito de uma perna s e baleeiro experiente, tem um nico objetivo: destruir Moby Dick, o cachalote branco que o atacou e aterroriza os caadores de baleias. 
  A bordo do Pequod, Acab atravessa os mares numa caada sem trguas, lutando contra seus piores instintos.
  A mais famosa histria do escritor americano Herman Melville, *Moby Dick*,  aqui recontada por Fernando Nuno e ilustrada por Nelson Cruz: um convite ao jovem leitor para uma viagem de suspense e aventura.
<p>
                              IX
 Sumrio Geral

 Primeira Parte

 1. A caminho do mar ::::::: 3
 2. Um momento de orao ::: 18
 3. A histria de
  Quiqueg :::::::::::::::::: 24
 4. Os preparativos da
  viagem :::::::::::::::::::: 30
 5. A partida :::::::::::::: 46
 6. Acab ::::::::::::::::::: 52
 7. No topo do mundo ::::::: 58
 8. Moby Dick ::::::::::::: 68
 9. Homens ao mar :::::::::: 74

 Segunda Parte

 10. Encontros marcantes ::: 85
 11. Rumo ao oceano
  Pacfico ::::::::::::::::: 96
 12. Cada vez mais
  prximo ::::::::::::::::::: 115
 13. O encontro final :::::: 132
 Concluso :::::::::::::::::: 141

 O vocabulrio deste
  livro ::::::::::::::::::::: 143
 Uma histria repleta de
  sentidos :::::::::::::::::: 150
 Os nomes e os temas
  bblicos :::::::::::::::::: 154
 Quem escreveu
  Moby Dick ::::::::::::::: 158
 A vida difcil depois de
  Moby Dick ::::::::::::::: 165
<6>
<tmoby dick>
<T+1>
  ... *E Deus criou as grandes baleias*...
 
<R+>
 Do livro do *Gnesis*, na Bblia
<R->

  *Nantucket  uma cidade de oito ou nove mil habitantes, que passam 
parte de sua vida no mar, numa atividade corajosa, contribuindo para a riqueza da nao*.

<R+>
 Senador Daniel Webster, dos Estados Unidos, em discurso de 1828
<R->

   impossvel encontrar um navio baleeiro no mar sem se 
impressionar. Com as velas abaixadas, cheio de marinheiros no alto 
dos mastros vigiando as guas,  muito diferente dos outros navios.
 
<R+>
 Do livro *Correntes martimas e pesca de baleias*
<R->
<p>
  *Muita gente sabe que, dos marinheiros que viajam nos baleeiros americanos, poucos regressam nos mesmos navios em que partiram*.

<R+>
 De *Viagem num baleeiro*
<R->

  *O cachalote  mais perigoso que a baleia verdadeira, pois sabe usar 
a boca e a cauda como armas de ataque. Muitas vezes ele  to 
astucioso e destrutivo que podemos consider-lo o mais perigoso dos 
animais para o homem*.

<R+>
 Frederick Bennett, *Viagem de pesca de baleias em redor do mundo*, 1840
<R->

  -- *Todos para a popa*! -- *gritou o imediato, ao ver a boca 
escancarada de um cachalote bem  frente do barco*. -- *Todos para 
a parte de trs, seno vamos morrer*!

<R+>
 De *Wharton, o matador de baleias*
<R->
<8>
<R+>
 1. A caminho do mar
<R->

  Podem me chamar de Ismael. J faz alguns anos (no importa 
quantos), numa poca em que estava sem dinheiro e com poucas 
atividades em terra firme que pudessem me atrair, tive a idia de 
buscar o que fazer no mar. Na verdade, sempre que me sinto meio 
deprimido, vou para o litoral: essa  a forma que encontrei para 
descarregar minhas tenses.
  Sei que no sou o nico. Por que as multides gostam de se concentrar nas praias, dirigir-se para a beira-mar sempre que podem?  como se a gua tivesse uma atrao mgica. Mesmo no interior, longe do oceano, uma pessoa sozinha que esteja passeando ao acaso acabar inevitavelmente se dirigindo para o rio ou lago mais prximo. O ato de meditar e a gua tm uma relao profunda. 
<p>
O mesmo vale na arte: quantas pinturas no tm a imagem do elemento lquido da natureza como parte importante da composio?
  Os antigos persas consideravam que o mar era sagrado, e para os 
gregos ele era um deus,
 *Posidon*, irmo do prprio rei dos deuses, 
*Zeus*. Para eles, at os rios eram divindades, assim como as fontes e 
lagos, cada qual com sua deusa-ninfa particular.
  Agora, quando digo que vou para o mar sempre que preciso respirar, 
no quer dizer que seja como turista. s vezes  muito cara a 
passagem de navio. Na verdade, viajo sempre como simples marinheiro. 
Talvez uma pessoa com grande amor-prprio no suporte receber ordens 
no convs de um navio, ainda mais sendo um professor da rea rural 
temido pelos alunos como eu. Com o tempo, porm, a gente se acostuma.
<9>
  Quando um velho capito me manda amarrar as cordas ou pegar uma vassoura para varrer o convs, no vejo nada de humilhante nisso. O arcanjo Gabriel no ir me tratar com menos bondade s porque obedeci humildemente a um velho ranzinza naquele dia. Depois, digam-me: quem no fez papel de escravo pelo menos uma vez na vida? Se algum trata mal uma pessoa, essa pessoa trata outra com desconsiderao, e assim por diante: o tapa universal d a volta ao mundo e a ltima pessoa a ser maltratada d um tapa justamente naquela primeira que destratou a segunda, e ficamos todos quites. No final, seria melhor todos ns coarmos as costas uns dos outros e ficarmos felizes com isso.
  Daquela vez, porm, no sei por que o Destino me levou a procurar trabalho na pesca da baleia. Provavelmente por ser ela um animal to imenso e poderoso, cheio de mistrio: isso aguava a minha curiosidade. Adoro sonhar com coisas distantes; assim, comecei a devanear sobre as baleias que iria encontrar para l da Patagnia, em mares cada vez mais longnquos.
  Foi assim que enfiei uma muda de roupa embaixo do brao e sa de casa disposto a viajar at o oceano Pacfico. De *Nova York*, onde ficava o porto mais prximo, segui para Nantucket, de onde saam os barcos dedicados ao negcio da baleia.
  No caminho, fiz escala na cidade de *New Bedford*, onde me alojei na estalagem mais barata que pude encontrar, o Albergue da Baleia. A placa do lugar mostrava tambm o nome do dono: *Peter Coffin*. Que ligao mais estranha! Pois *coffin*, em ingls, significa caixo de defunto; depois descobri que esse era um sobrenome comum na regio.
  L dentro, a decorao simples da estalagem era toda feita com 
elementos relativos  pesca dos grandes cetceos. A coisa que mais 
impressionava, sombreada pela iluminao fraca, era uma enorme 
mandbula de baleia arqueada sobre
 o bar. Era to grande que uma 
carruagem quase poderia passar debaixo dela.
  Quando pedi ao dono da estalagem um quarto para passar a noite, ele me respondeu que as camas estavam todas ocupadas. Depois, bateu na testa, lembrando-se de uma coisa, e disse:
<10>
  -- J sei, voc vai pescar baleias, no  verdade? Ento no vai se 
incomodar de dividir uma cama grande com um arpoador.
  No gostei da idia, mas refleti que isso era prefervel a passar a noite na rua, naquela cidade estranha, e aceitei a oferta. Fazia muito frio, e jantei numa mesa pequena, apertado com outros quatro ou cinco marinheiros.
  De repente, ouviu-se um barulho na entrada. Um grupo confuso de 
homens surgiu, enrolado nos cachecis e casacos de l. Eles acabavam 
de desembarcar depois de uma viagem de trs anos atrs de baleias, e 
aquele era o primeiro lugar em que entravam.
  Jonas, o velho todo enrugado que atendia no bar, logo providenciou comida e bebida para todos. Num instante ficaram muito animados, e comearam a cantar e contar piadas ruidosamente. Notei, no entanto, que um deles no participava da algazarra, preferindo manter-se calado e srio. Logo, ele saiu do bar, e s voltei a v-lo depois como companheiro de bordo no navio em que viriam a ocorrer as aventuras contadas neste livro. 
  Eram nove horas da noite, e comecei a refletir que realmente no era do meu gosto a perspectiva de dividir a cama, por maior que ela fosse, com outra pessoa, e ainda por cima um marinheiro desconhecido. Quanto mais pensava no assunto, mais ia detestando a idia. E se ele chegasse  meia-noite, quando eu j estivesse dormindo, e casse bbado sobre a cama? Eu certamente acordaria assustado, e ele, que deveria ser um homem rude como os arpoadores geralmente so, poderia ter alguma reao violenta ao esbarrar em mim.
  Experimentei deitar-me num banco do bar, mas a corrente de ar me incomodou muito, fazendo-me temer um forte resfriado. Comecei a pensar que talvez eu estivesse sentindo um preconceito injusto contra uma pessoa que no conhecia, e que podia ser um homem humilde mas honesto. Resolvi esperar ali mesmo pela chegada do tal arpoador e decidir se iria dormir no quarto depois de ver a cara do sujeito.
  O tempo passava. J era quase meia-noite, e nada de ele chegar. Decidi perguntar ao dono da estalagem:
  -- Afinal, que tipo de pessoa  esse arpoador? Parece que ele no 
vem dormir aqui esta noite... -- pela minha voz, dava para perceber que eu estava bem inquieto.
<11>
  -- No se preocupe, meu amigo -- respondeu o estalajadeiro. -- Ele chegou de uma viagem aos mares do Sul, no Pacfico. Trouxe umas cabeas mumificadas da Nova Zelndia e j vendeu quase todas por aqui. Faltava negociar apenas uma, e deve ser por isso que ainda no chegou: ele deve estar tentando vender a ltima. Amanh  domingo, e no fica bem sair por a vendendo mmias de cabeas enquanto as outras pessoas esto indo  igreja. Domingo passado, eu tive que passar um sermo nele porque, imagine!, j estava quase saindo por essa porta com quatro cabeas penduradas numa corda... At parecia um vendedor de rstias de alho!
  Foi a que fiquei mesmo assustado, por perceber que ia passar a noite ao lado de um selvagem vendedor de coisas tpicas de canibais, como cabeas de pessoas mumificadas. Vendo o meu quase pavor, o estalajadeiro tentou me tranqilizar novamente:
  -- Ele paga as contas direito. Mas j est ficando tarde,  melhor tratar de dormir. A sua cama  muito boa; duas pessoas podem se espichar nela  vontade sem incomodar uma  outra.
  Diante disso, s me restou deixar que ele me mostrasse o caminho do quarto. O estalajadeiro ia com uma vela acesa na mo, e deixou-a em cima de uma arca de marinheiro.
  Assim, depois de me trocar, sentei-me na cama e pensei no arpoador que vendia cabeas. Por fim, resolvi apagar a vela, rezei pedindo proteo e tentei dormir.
  Fiquei rolando na cama, pois o sono no vinha, at ouvir o barulho de passos que se aproximavam no corredor. Vi por baixo da porta a luz fraca de uma vela e pensei: Deus me proteja, deve ser o canibal.
  Com a vela numa das mos e a tal cabea na outra, ele entrou no quarto. Depois de apoiar a vela, comeou a mexer num saco que estava num canto. Quando ele finalmente se virou de frente para mim, pude notar, com a ajuda daquela luz fraca, que tinha o rosto totalmente manchado. Assustei-me a princpio, depois refleti que, para um marinheiro que passa a vida toda exposto ao sol, era natural ter vrias cores na pele da cara, de tanto se queimar.
  Ele no parecia perceber a minha presena. Voltou a mexer no saco 
que continha os seus pertences e tirou dele uma machadinha e um saco menor, de pele
<12>
de foca, ainda com os plos. Colocou essas coisas sobre a arca no 
meio do quarto e guardou a cabea no saco pequeno. Foi a que tirou o chapu de pele de castor. Quase gritei de susto: ele era totalmente careca, ou melhor, quase careca, pois tinha apenas um pequeno tufo retorcido na cabea. Nesse instante senti tanto pavor que era como se o canibal fosse o prprio Diabo. Se ele no estivesse entre mim e a porta, eu teria dado um pulo e fugido do quarto nesse instante.
<p> 
  Enquanto isso, o selvagem continuava a se trocar. Olhando para o peito e as costas do homem, parecia que ele havia participado de uma guerra, pois o corpo tinha as mesmas manchas do rosto, s que maiores: o todo dava a impresso de um grande tabuleiro de xadrez. As pernas seguiam o mesmo padro. S podia ser um selvagem caador de cabeas, recolhido e trazido por algum navio baleeiro! Lembrei-me com pavor da machadinha que ele tinha posto sobre a arca...
  Sem perceber nada do meu pnico, ele tirou tranqilamente do bolso do casaco, que tinha pendurado numa cadeira, um bonequinho deformado. Pensei at que podia ser a mmia de uma criana pequena, mas acabei notando que a figura era de madeira escura. O selvagem colocou o boneco sobre a lareira apagada, ps uma bolacha ao lado e acendeu uns tocos de madeira em cima dela. A seguir, encostou vrias vezes os dedos no fogo, afastando-os rapidamente (pois era bvio que sua mo sentia a queimadura), at conseguir tirar a bolacha. Ofereceu o biscoito ento ao boneco, fazendo sons estranhos com a garganta. Era evidente que estava rezando conforme a religio dele. Depois, apagou o fogo, pegou o boneco de qualquer jeito e o guardou novamente no bolso do casaco sem maiores cerimnias.
  Fui me sentindo cada vez mais incomodado durante o ritual, e achei 
que devia dizer alguma coisa. No entanto, aquele seria o pior momento 
para falar, pois o selvagem se virou para pegar a machadinha. Em 
seguida, apagou a vela e pulou na cama com a machadinha entre os 
dentes. No mesmo instante rolei de medo at a parede e, gaguejando, 
pedi que ele ficasse parado e acendesse a vela de novo. Admirado com 
a minha reao, ele perguntou:
<p>  
  -- Quem ser voc? Se no fala, eu mata voc.
  E comeou a agitar a machadinha no ar.
  -- Estalajadeiro! *Peter Coffin*! -- pus-me a gritar. -- Venha me salvar!
<14>
  -- Pra! Agora fala, diz quem ser voc, seno eu mata -- ele continuava a ameaar.
  Nesse instante o dono da hospedaria entrou, com uma vela na mo. 
Dei um pulo na direo dele.
  -- No tenha medo! -- ele tentou me acalmar, enquanto ria. -- Quiqueg  incapaz de fazer mal a uma mosca.
  -- Quer parar de rir? -- disse eu. -- Por que no me disse que eu 
ia dormir ao lado de um canibal?
  -- Mas eu no contei que ele saa pela cidade vendendo cabeas mumificadas? -- foi a resposta dele. -- Pode dormir sossegado. -- Em seguida virou-se para o arpoador e disse: -- Quiqueg, ficar calmo. Voc conhece eu. Esse homem vai dormir na cama, do seu lado. Agora certo?
  -- Agora certo -- respondeu Quiqueg, sentando-se na cama. Depois virou-se para mim e disse: -- Voc pode sossegado dorme.
  Ele disse aquilo com tanta educao que me arrependi da reao intempestiva que havia tido. Reparando bem, at que ele era um canibal de boa aparncia. Com a ajuda da luz de mais uma vela, vi que estava totalmente tatuado: era isso que formava os quadrados espalhados pelo corpo todo. Eu disse ento:
  -- Senhor Coffin, faa o favor de pedir a esse homem para guardar a machadinha, e eu irei dormir.
  O estalajadeiro falou com ele, e Quiqueg concordou, demonstrando 
gentileza. Depois, fez um gesto para mim como se dissesse: Pode fica tranqilo, eu no vai tocar nem um fio de cabelo seu.
<p>
  Diante disso, dei boa-noite a todos, o estalajadeiro saiu... e nunca dormi uma noite to bem dormida na minha vida inteira!

               oooooooooooo

<15>
<p>
<R+>
 2. Um momento de orao
<R->

  No quero me estender contando como foi o caf-da-manh. Vou mencionar apenas que Quiqueg nem ligou para os pezinhos e o caf, pois preferiu atacar alguns belos bifes malpassados. Assim, passo diretamente a falar sobre as impresses que tive aqueles dias.
  Quando samos para as ruas de *New Bedford*, pude verificar,  luz do dia, por que Quiqueg no causava estranheza nas outras pessoas -- e olhem que a aparncia dele no era nenhum modelo de elegncia... Imaginem um selvagem recm-chegado das ilhas do Pacfico sul, mas usando um chapu alto de castor, camisa e cala grossas de brim e botas grandes. No entanto, marinheiros de todas as partes do mundo, com as aparncias mais esquisitas, se reuniam naquela regio, para embarcar em navios baleeiros ou tendo acabado de chegar de viagem.
  Em *New Bedford* existe uma igrejinha, a Capela dos Baleeiros, que  
visitada em busca de proteo por todos os marinheiros que partem em viagem de caa  baleia. As paredes da capela tm pedras de mrmore com dizeres como estes:

 *Em memria de*
  Robert Long, Willis Ellery, Nathan Coleman, 
  Walter Canny, Seth Macy e Samuel Cleig, 
  Marinheiros de um dos botes do navio ELISA.
<17>
  Seu bote foi arrastado por uma baleia at se perder de vista
  No vasto oceano Pacfico,
  Em 31 de dezembro de 1839.
  Esta lpide foi colocada
  Por seus companheiros sobreviventes.

  Vocs podem imaginar os sentimentos contraditrios que tomaram conta de mim naquele lugar. Afinal, eu estava s vsperas de procurar emprego num navio baleeiro, e a leitura daquelas lpides de pedra, todas em memria de marinheiros mortos devido aos perigos dessa atividade, me encheu de melancolia. Pensei: Pois , Ismael, quem sabe voc no venha a ter esse mesmo destino?
  Quiqueg e eu nos sentamos num banco da capela. Logo entrou um padre j bem velho e subiu para o plpito. A escada, em vez de ser em caracol como nas outras igrejas, era reta, quase vertical, como as usadas para subir ou descer pelo costado dos navios. Todos os que se encontravam ali se viraram para ouvir o padre; parecia que j estavam  espera dele.
  A parede ao fundo do plpito tinha uma pintura, na qual aparecia um navio durante uma tempestade, e entre as nuvens escuras via-se um anjo. A frente do prprio plpito parecia uma proa de navio, com a Bblia apoiada sobre o mastro que se projetava para diante dele. Entendi desta forma a imagem que o artista procurara transmitir: o mundo  um grande navio, em que viajamos todos ns, e o plpito seria a proa do mundo na travessia em direo a Deus.
  Para reunir mais perto dele as pessoas dispersas pela capela, o padre usou a linguagem dos marinheiros:
  -- Os que esto a estibordo venham na direo de bombordo, e os de bombordo avancem para estibordo! Fiquem todos juntos no meio do convs!
  Assim que o movimento dos passos e o rudo dos bancos cessaram, o padre ps-se a cantar um hino religioso:

<R+>
 Vi a baleia de goela aberta
 Entre as ondas, era grande a aflio.
 Orei a Deus. Meu senhor, sempre alerta,
<p> 
 Olhou por mim, me trouxe a salvao.
<R->

<18>
  Em seguida, ele folheou a Bblia e principiou o sermo, que tratava de Jonas, o profeta que desobedeceu a uma ordem de Deus e por castigo foi engolido por uma baleia. Ele ficou dentro dela durante trs dias, tempo suficiente para pensar no asssunto e se arrepender da desobedincia.
  O padre falava com tanta energia que podamos sentir na carne o sucedido com o profeta. L fora, comeou uma tempestade, e o barulho que se escutava da capela parecia aumentar o drama da histria que estvamos ouvindo e a fora das ameaas e conselhos religiosos.
  Por fim, quando o tempo comeava a melhorar, o padre falou com voz mais calma, descrevendo como Jonas havia sido vomitado pela baleia, para seguir os ensinamentos de Deus na terra. Em seguida, completou:
  -- Esta  a lio da histria de Jonas: ai daquele que no seguir a verdade, procurando fugir dela! Pois a estibordo de cada sofrimento existe uma alegria. A felicidade  para aqueles que conseguem segur-la nos braos, quando o navio afundou debaixo deles.

               oooooooooooo

<19>
<p>
 3. A histria de Quiqueg

  Passamos a noite seguinte ainda no Albergue da Baleia. No salo, 
Quiqueg pegou um livro volumoso que estava num armrio. Fiquei 
admirado ao imaginar que ele soubesse ler, mas aconteceu algo um 
pouco diferente: Quiqueg comeou a contar as folhas do livro. Quando 
chegava a cinqenta, soltava as folhas j contadas e recomeava do 
um, at chegar a cin-
 qenta novamente. Assim, durante o dia, diante 
dessas e de outras atitudes, fui percebendo que ele era uma criatura 
realmente gentil e pacfica, apesar da aparncia.
  No quarto, fui eu quem acendeu as lascas de madeira, alm de ter oferecido juntamente com Quiqueg os biscoitos queimados ao dolo dele. Afinal, refleti, devemos fazer aos outros o que queremos que nos faam. Pois ento, ele no havia me acompanhado at a igreja e ouvido o sermo do padre com tanta ateno como eu?
  Depois que nos deitamos, Quiqueg comeou a contar sua histria. Ele havia nascido em Cocovoco, uma ilha nos mares distantes do oeste e do sul que no aparece em nenhum mapa -- alis, como nenhum outro lugar de verdade.
  Quando era menino, a correr pelas matas, seguido pelas cabras que 
mordiscavam seu corpo como se ele fosse uma planta cheia de brotos, Quiqueg j sentia vontade de conhecer mais sobre os homens brancos do que havia visto at ento, ou seja, um ou dois navios baleeiros com sua tripulao. O pai de Quiqueg era o rei da ilha, e sua famlia era de guerreiros audazes.
<21>
  Mais um baleeiro ancorou na ilha, e Quiqueg, que j era um belo rapaz, pediu para embarcar nele. O capito no permitiu, e de nada adiantou o pai de meu amigo ser um homem to importante. Mas Quiqueg estava decidido: remou na canoa at um ponto distante por onde o navio teria que passar e esperou. Quando o baleeiro apareceu, ele remou at a embarcao. Empurrou a canoa para longe e subiu pelas correntes estendidas junto ao costado.
  No adiantou nada o capito ameaar jog-lo de novo no mar nem 
mostrar um faco dizendo palavras ameaadoras; Quiqueg era filho de 
rei, nem se mexeu. O capito, admirado com aquela resistncia, juntou 
o rapaz aos outros marinheiros, e logo ele se tornou um baleeiro. Na 
verdade, Quiqueg tinha a inteno de aprender as melhores coisas dos 
cristos para lev-las na volta  sua ilha, com o sentido de ajudar a 
melhorar a vida de seu povo. A vida entre os marinheiros, porm, logo 
o convenceu de que os homens brancos eram to selvagens como os 
canibais. Por isso, ao chegar a *Nantucket*, a capital dos baleeiros, 
Quiqueg j tinha uma opinio formada: Maldade existe qualquer parte 
do mundo. Eu prefere continuar pago.
  Manteve as suas crenas, mas adotou o vesturio dos cristos e procurava seguir os nossos costumes. Por isso parecia to estranho. Perguntei a Quiqueg se no pretendia voltar para se tornar rei no lugar de seu pai. Ele respondeu que no, pelo menos por enquanto; achava que, no fundo, o fato de ter passado tanto tempo entre os cristos podia ter-lhe tirado o direito e a dignidade de herdar o trono sem corrupo e cheio de dignidade que trinta reis consecutivos, honestos e pagos, haviam ocupado at ali.
  Assim, perguntei-lhe o que pretendia fazer no futuro imediato. Ele 
respondeu que pensava em prosseguir na vida de marinheiro. Afinal, essa tinha sido a sua primeira vontade, quando menino, e alm do mais j tinha se tornado um excelente arpoador. Eu disse que pretendia ir para a ilha de Nantucket, a fim de achar emprego na pesca da baleia, e ele decidiu imediatamente me acompanhar e trabalhar no mesmo navio em que eu conseguisse me engajar. Fiquei contente com aquela disposio, pois tinha aprendido a gostar de Quiqueg, e ele, como arpoador experiente, poderia ser um grande mestre para mim sobre os segredos da atividade.
<22>
  Depois disso, dormimos magnificamente. Na manh seguinte, 
segunda-feira, acertamos as contas no albergue e Quiqueg conseguiu 
vender a ltima cabea para um barbeiro, que iria us-la como apoio 
de perucas. Na rua, todos pareciam se divertir, no com a figura toda 
tatuada de Quiqueg -- que iguais a ele circulavam muitos
 por ali --, 
mas com a grande camaradagem que parecia existir entre ele e mim. 
Isso sim  que causava espanto.
<p>  
  Embarcamos para Nantucket, e pude finalmente sentir a delcia da aragem do mar em meu rosto.

               oooooooooooo

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<R+>
 4. Os preparativos da viagem
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  *Nantucket* fica numa pequena ilha junto quela ponta que aparece no mapa logo a leste de Nova York e a sudeste de Boston. (No  difcil encontrar sua localizao num bom atlas.) Segundo uma antiga lenda indgena, certa vez uma guia pegou um beb com as garras. Assustados, os pais viram a criancinha ser levada pelos ares em direo ao mar. A tribo seguiu em canoas mar adentro at descobrir a ilha, onde os ndios encontraram um caixozinho branco, de marfim, com o esqueleto do beb.
  Depois de se estabelecer na ilha, aquela tribo passou a viver do 
mar. Primeiro, pegavam caranguejos e mariscos na praia; depois, 
comearam a pescar os peixes que nadavam mais prximo; em seguida, 
com mais experincia na navegao, os habitantes da ilha -- que j no eram apenas os indgenas, desde a chegada dos europeus -- passaram a ir mais longe, em busca do bacalhau; e finalmente, construindo grandes navios, formaram o maior centro de caa  baleia do mundo no sculo XIX. Alguns pases so enormes, como a Rssia e o Canad, mas nenhum se compara ao domnio dos nantucketenses, que tinham como territrio todos os oceanos.
  Assim que chegamos  ilha, Quiqueg e eu fomos procurar a estalagem 
que nos havia sido recomendada por *Peter Coffin*. Ali, comemos a mais 
deliciosa e fumegante caldeirada, com bacalhau e mariscos, que seria possvel encontrar. A dona do lugar no permitiu que Quiqueg levasse o arpo para o quarto. Para justificar a proibio, contou a histria macabra de um marinheiro que havia sido encontrado em sua cama com o peito atravessado por esse perigoso instrumento de pesca.
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  Antes de dormir, Quiqueg me contou que havia consultado a imagem de Iojo (era esse o nome do dolo a quem ele prestava venerao), e que Iojo havia dito, com muita nfase, que eu deveria escolher sozinho o navio em que iramos embarcar. Ou seja, no deveria ser uma deciso conjunta; Iojo dizia que Ismael encontraria fatalmente o navio mais indicado, sem pedir a opinio de Quiqueg.
  No confiei muito naquilo, pois j tinha percebido, nos dias anteriores, que Iojo era um deus que acertava no atacado, mas s vezes falhava nas coisas mais especficas. Por isso, para mim, era Quiqueg quem naturalmente saberia escolher o melhor navio para ns com mais acerto. Afinal, ele tinha muito mais experincia que eu das coisas do mar.
  Mas no adiantou nada. Quiqueg confiava tanto em Iojo e insistiu tanto no assunto que no houve como mudar a deciso dele.
  Assim, fui visitar os baleeiros ancorados no porto e conclu que um deles, chamado *Pequod*, parecia o mais adequado. O nome do navio era o mesmo de uma tribo indgena extinta. J a embarcao em si era de um tipo antiquado: um pouco pequena mas muito resistente. Via-se que j tinha enfrentado as piores situaes e tempestades no mar, e sempre se sara bem.
  Era meio-dia, e o navio estava quase vazio. Subi a bordo e encontrei um dos donos, o capito Peleg, a quem pedi o emprego. Ele duvidou da minha capacidade, espantando-se de que eu, um reles professor interiorano e marujo eventual da marinha mercante, quisesse embarcar num navio baleeiro.
  Eu respondi que queria muito conhecer a pesca da baleia e tinha toda a fibra necessria. Ele ento me perguntou se eu j tinha visto o capito Acab, comandante do navio. Respondi que no, e ele continuou:
  -- Voc vai ver que ele s tem uma perna. Sabe como perdeu a outra? -- Fiz um ar de admirado, e ele prosseguiu: -- Voc  como os outros mocinhos delicados dos navios mercantes, no sabe o que  uma baleia nem devia aparecer por aqui pedindo trabalho. A perna do capito Acab foi esmigalhada, triturada, devorada, pelo cachalote branco mais terrvel que j atacou um navio... Voc teria coragem de atirar um arpo na bocarra de uma baleia enorme e sair atrs dela? Responda, rpido!
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  -- Claro! -- respondi. -- Se fosse necessrio, teria sim!
  Tendo verificado a minha determinao, Peleg me aprovou e trouxe os papis do contrato de trabalho. Antes, porm, de colocar neles a minha assinatura, ele me levou at o capito Bildad, que estava sentado numa trave da popa lendo um livro grosso com um murmrio bastante alto. Peleg perguntou a ele:
  -- Ento, Bildad, j acabou de ler a Bblia? H trinta anos que voc est nisso e ainda no acabou?
  Bildad, que j estava acostumado quele tipo de provocao, no respondeu. Pelo que eu tinha ouvido antes de entrar no navio, j sabia que ele era um dos dois principais proprietrios do navio; o outro era Peleg. Os demais donos da embarcao eram pequenos acionistas, vivas e rfos de marinheiros ou pessoas simples de Natucket. A populao da cidade investia tudo o que tinha nos navios baleeiros.
  Bildad tinha uns sessenta anos de idade e fama de avarento. Tambm j havia derramado muito sangue de baleia. Era um homem bastante religioso, mas possua a violncia dos caadores. Alis, todo o povo de Nantucket era muito religioso, por isso era comum as pessoas dali terem nomes tirados da Bblia. Peleg perguntou a Bildad qual seria a minha participao, para assinarmos os papis. Ele respondeu:
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  -- A setingentsima setuagsima stima parte. -- Ou seja, ele 
estava me propondo a ridcula quantia de #,ggg (um setecentos e 
setenta e sete avos) do resultado. Isso  que era ser sovina! Parecia 
at um nmero tirado da Bblia. Eu j sabia, pelo que tinha 
investigado a respeito, que #,bge, por exemplo, seria uma cota pequena mas aceitvel.
  Peleg voltou a falar:
  -- Agora vamos falar srio, Bildad. Deixe de ser mesquinho. Ele vai receber a trecentsima parte e no se fala mais nisso.
  Bildad fez cara de quem achava Peleg um perdulrio, mas voltou a 
ler o livro que tinha nas mos. Em resumo, tive de aceitar apenas 
#,cjj da renda da viagem, ou seja, menos que #,bge. Ns nos afastamos para assinar o contrato na cabine, e foi ento que aproveitei para perguntar:
  -- Capito Peleg, tenho um amigo arpoador que tambm gostaria de embarcar no *Pequod*. Ele j pegou mais baleias do que eu seria capaz de contar.
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  -- Est bem, pode traz-lo ento.
  Sa do *Pequod* com a certeza plena de que aquele era precisamente o navio que Iojo tinha reservado para Quiqueg. Depois de caminhar alguns passos, porm, lembrei-me de que no tinha visto o capito Acab, que iria comandar a tripulao. Por isso, voltei para bordo e perguntei por ele ao capito Peleg.
  -- O que voc quer com ele? -- perguntou Peleg. -- O capito Acab  um homem estranho, mas bom. Ele no  de falar muito, mas voc vai gostar do homem, pois j esteve nos mares mais distantes, nas ilhas dos canibais, e sempre parece estar acima de tudo o que acontece em redor. Lembre-se de que ele tem nome de rei.
  -- Sim -- confirmei --, Acab foi um rei da Bblia, mas se revoltou 
contra Deus e foi castigado. Quando ele morreu, os pr-
 prios cachorros vieram lamber o seu sangue.
  -- Escute aqui, rapaz -- disse o capito Peleg, falando mais baixo. 
-- Nunca repita isso perto dele. No foi o capito que escolheu o 
nome que tem. Isso foi um capricho da me dele.  verdade que fala 
palavres e no liga para a religio, mas no fundo  um homem bom. 
Viajei com ele e sei que nunca foi uma pessoa muito alegre. Claro que 
o humor do capito
 Acab mudou para pior depois que o maldito cachalote devorou a perna dele, mas isso passa com o tempo. Na viagem de volta chegou a perder o juzo por uns tempos, mas qualquer um que sentisse as dores que ele teve no coto ensangentado da perna ficaria na mesma situao. No se preocupe, Ismael, ele tem mulher e um filho pequeno: voc acha que um homem assim no tem cura?
  Voltei a me despedir e sa do navio, pensativo.
  Os dias seguintes foram de grandes preparativos. Quiqueg e eu levamos nossas coisas para o *Pequod*, mas meu amigo no foi bem recebido pelo capito Bildad:
  -- O qu? Voc no disse que o seu amigo era um canibal! No queremos nenhum filho das trevas a bordo -- o capito quase tremia, agitando a bblia que tinha na mo, enquanto ainda estvamos no cais.
  -- Mas ele  cristo, membro da Primeira Igreja Congregacional de Nantucket. Vrios pagos que vm para c nos baleeiros j esto convertidos -- respondi.
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  -- Voc est brincando comigo, rapaz? Se ele fosse batizado, j 
teriam tirado um pouco desse azul todo que ele usa na cara.
 -- Bildad se referia s tatuagens. -- Que igreja  essa?
  -- No estou brincando, no senhor. Ele  da igreja mais antiga, que congrega a todos ns, a primeira religio do mundo, que junta todas as outras que vieram depois e que ns seguimos. Pois Deus no  o mesmo para todos, capito?
  -- Bela resposta, rapaz -- disse o capito Peleg, que se aproximava. -- Voc faria melhor indo como missionrio do que como marinheiro a bordo. Bildad, deixe essa conversa de lado. E voc, Quoquog, ou qual seja o seu nome, gostei do feitio do seu arpo. J vi que, pelo menos, sabe segur-lo muito bem. Agora me diga uma coisa: voc j pegou um peixe alguma vez na vida?
  Subimos a bordo no mesmo instante, e Quiqueg, com aquele seu jeito natural, apontou para um borro de piche num dos botes presos ao costado do navio. Ento, disse:
  -- Capito, vendo aquele piche aquele bote? Ento imagina  olho de baleia.
  Rapidamente, ele dobrou o joelho esquerdo e ergueu o arpo. Em seguida, atirou-o com fora em direo ao alvo. O arpo passou rente ao chapu de abas largas que o capito Bildad tinha na cabea, atravessou o convs e atingiu a mancha de piche bem no centro.
  -- Pronto, agora pegou baleia -- observou o meu amigo.
  Bildad se encolheu, assustado, e Peleg disse para ele:
  -- Rpido, Bildad, v buscar a papelada do contrato! Vamos dar a nonagsima parte para o nosso amigo Quoquog aqui. Mas que fique claro: nunca um arpoador foi to bem pago em nenhum outro navio de Nantucket.
  Naturalmente, como Quiqueg no sabia ler nem escrever, assinou em 
cruz o contrato que lhe dava #,ij da pesca durante a 
viagem. Bildad aproveitou para pr nas mos dele um livrinho com o 
longo ttulo *O final dos tempos est chegando! Prepare-se para o 
apocalipse*, ao mesmo tempo em que dizia:
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  -- Filho das trevas, devo cumprir minha obrigao de converter os selvagens. Afaste-se dos seus dolos, deixe de ser escravo do drago e do demnio e salve-se do inferno!
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  -- Agora chega, Bildad -- interrompeu Peleg. -- J sabemos que arpoadores carolas nunca do bons marinheiros. Veja o caso de Nat Swaine, que era o arpoador mais corajoso; deu de se juntar com as beatas e acabou criando medo de baleia. No existe ningum mais assustado que ele; agora passa o tempo todo com pavor de que uma baleia fure o casco do navio e mande a alma dele para o outro mundo!
  Enquanto os dois discutiam, fomos instalar nossas coisas. Depois descemos novamente para o cais, onde topamos com um homem de roupas esfarrapadas, que nos perguntou:
  -- Vocs vo viajar no
 *Pequod*? -- e apontava com o dedo rgido, como se estivesse atirando com uma arma para o navio.
  -- Vamos, sim senhor. Por qu?
  -- Tomem bastante cuidado com sua alma, para no perd-la na 
viagem. J conhecem o capito
 Acab? Sabem como ele perdeu a perna na ltima pescaria? No, com certeza ningum disse a verdade a vocs...
  -- Meu amigo, no se preocupe, ns j sabemos tudo a respeito...
  -- Tudo mesmo? Tm certeza?... Mas no importa mais. Agora vocs j assinaram o contrato de trabalho no *Pequod*, e ficar aqui conversando comigo  perda de tempo... Que Deus os acompanhe... -- e o homem continuava a apontar com o dedo descarnado para o navio.
  -- Escute aqui -- disse eu --, se tem alguma coisa importante a dizer, diga logo.  muito fcil fingir que se guarda um grande segredo.
  -- No  nada, amigos, no  nada... Vo em paz...
  -- Isso mesmo. Quiqueg, vamos deixar esse doido a sossegado... A propsito, amigo, qual  o seu nome?
  -- Elias...
  Quiqueg e eu nos afastamos, e fiquei a pensar no sentido do que aquele velho marinheiro esfarrapado havia dito. No final, conclumos que era s mais um doido... no entanto, as coisas que ele disse continuaram a nos inspirar idias sombrias.
  Enquanto isso, a bordo, os preparativos para a viagem continuavam  toda. Velas novas eram colocadas, as antigas iam sendo consertadas, as provises compradas eram estocadas nas despensas. Devo lembrar que, na pesca da baleia,
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era necessrio levar equipamentos e vveres suficientes para trs anos de viagem. Em alto-mar, estamos longe de quitandas, padarias e bancos.
  Alm disso, acidentes ocorrem com mais facilidade nessa atividade. Por isso tnhamos de levar cordas, velas, arpes e botes de reserva, quase um segundo navio desmontado e guardado dentro do primeiro.

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 5. A partida

  Por fim, no dia marcado, antes do nascer do sol, Quiqueg e eu nos dirigimos para o *Pequod*. Quando estvamos no cais, algum tocou em nossos ombros. Era outra vez Elias, que disse, com voz sombria:
  -- Quer dizer ento que vo embarcar? Eu queria prevenir vocs contra... Ah, no importa... Adeus! S voltaremos a nos ver no dia do Juzo Final... -- E se afastou, deixando-nos de boca aberta diante daquela atitude.
  Subimos a bordo, e logo outros marinheiros chegaram. Em um instante, o movimento a bordo, a azfama, a balbrdia, os rudos mais diversos se instalaram.
  Ao meio-dia, o *Pequod* j tinha sido puxado por um rebocador para 
fora do quebra-mar. Parentes dos marujos, em botes, ainda traziam os 
ltimos embrulhos de roupa
<p>
 e conservas de comida, quando Peleg disse 
para Starbuck, que era o primeiro-imediato:
  -- Estamos prontos para zarpar! O capito Acab j deu a ordem de partida, no  permitido trazer mais nada para o navio. Rena todos os marinheiros para receberem instrues.
  --  para j, senhor -- respondeu o imediato.
  Do capito Acab, nem sinal. Peleg e Bildad pareciam os verdadeiros comandantes do navio. Peleg, mais ativo, deu ordens para recolher e enrolar a ncora e para iar a vela do cabrestante. Quando cumpria minha parte, senti que recebia um forte pontap no traseiro.
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  Virei-me e, assustado, dei com o capito Peleg a gritar comigo:
  -- Ento  assim que se puxa uma corda? Mexa-se, seu preguioso! 
Est com medo de quebrar a espinha? Andem, vocs todos! E
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 voc a, 
Quoquag, que moleza  essa?
  Enquanto isso, o capito
 Bildad continuava do outro lado, recitando os salmos da Bblia. Finalmente Peleg e Bildad saram do navio, as velas foram erguidas e comeamos a navegar. Era um Natal frio, um dia curto de inverno no hemisfrio Norte. Em pouco tempo baixou a escurido; enfileirados, os dentes de baleia presos aos costados do navio brilhavam estranhamente ao luar. Quem nos visse de longe poderia pensar que uma manada de elefantes, com suas longas presas brancas, avanava, com os animais lado a lado.
  Apesar do frio e dos ps molhados, senti alegria e esperana, reconfortado pelo canto religioso que um marinheiro magro entoava e confiante na expectativa de conhecer vrios portos novos e cheios de vida.
  Juntos, todos ns, marinheiros, demos trs vivas e penetramos no solitrio oceano Atlntico, cegamente, como  cego o destino.
   verdade que o mundo no tinha na mais alta conta a profisso de 
baleeiro, mas, mesmo sem querer, uma homenagem nos era prestada a 
cada vez que se acendia uma lamparina ou uma vela. Pois a verdade  que toda vez que se precisava acender uma luz, em grande parte do mundo, a lamparina ou a vela eram feitas com gordura de baleias caadas por ns. Que tipo de azeite julgam que  usado na coroao dos
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grandes reis? No  azeite de oliveira, nem leo de fgado de bacalhau, muito menos leo de palmeira, de urso ou de castor. Pois  o mais doce dos azeites, o mais puro e natural, o leo de cachalote. 
  Na poca em que aconteceu esta histria, s os Estados Unidos tinham uma frota de mais de setecentos navios, com mais de dezoito mil tripulantes, no valor de vinte milhes de dlares (em valores de 1850), com um custo anual de quatro milhes e um produto, altamente compensador, de sete milhes. A Inglaterra financiou seus baleeiros com um milho de libras num perodo de trinta anos. Vrias outras naes investiam muito dinheiro nesse negcio. No acredito que houvesse atividade econmica mais pujante que essa, no mundo, naquele perodo.
  Alm disso, muitos descobrimentos de terras novas se devem a essa 
atividade. E tenho mesmo a certeza de que a independncia das colnias espanholas do lado americano do Pacfico, como o Peru e o Chile, muito deve s idias novas trazidas a bordo dos baleeiros que freqentavam seus portos -- apesar da vigilncia dos colonizadores. A Austrlia se tornou uma terra conhecida e desbravada pelo mundo graas ao trabalho constante dos baleeiros. Na Polinsia, bem no centro da vastido do Pacfico, fomos ns que abrimos o caminho para os mercadores e os missionrios. E, se algum dia a contar do ano em que escrevo este livro (1851), essa terra fechada com cadeado duplo, o Japo, voltar a se abrir para o Ocidente, com certeza dever isso s abordagens iniciadas pelos baleeiros.
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  E no venham me dizer que nenhum escritor importante ainda no tratou da baleia. Pois est l, na Bblia, quando o livro de J se refere a Leviat, o grande monstro do mar, e no livro do profeta Jonas, que ficou trs dias e trs noites no ventre do grande peixe antes de ser lanado de volta  praia. Para atestar sua importncia, uma velha lei inglesa declara que a baleia  o peixe dos reis.
  Quanto a mim, s posso dizer que, se sei alguma coisa da vida, devo isso  viagem no navio baleeiro: ele foi a minha universidade...

               oooooooooooo

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 6. Acab 

  Os dias se passavam, e nada de surgir o capito Acab. Os trs oficiais imediatos pareciam ser os verdadeiros comandantes do navio; s se percebia que existia algum acima deles quando saam do camarote trazendo ordens repentinas e sem possibilidade de resposta. 
  Sempre que estava no convs, eu olhava para todo lado, tentando ver se aparecia alguma cara nova para mim. Estava muito ansioso para saber como era a figura do capito. 
  Navegvamos em direo sul, fugindo ao frio do hemisfrio Norte. Numa daquelas manhs, com o tempo ainda encoberto e sombrio, mas no to congelante como no Natal do incio da viagem, foi que finalmente vi o capito Acab no passadio.
  No parecia uma pessoa doente, mas algum que tivesse sido salvo de ser queimado na fogueira depois de o fogo ter sido aceso. Um dos lados do rosto tinha um risco, uma cicatriz funda de alto a baixo, dos cabelos ao pescoo. Durante a viagem ningum quis falar sobre essa marca -- todos pareciam ter medo de entrar no assunto --, a no ser Tachtego, um velho ndio, que disse apenas que Acab tinha ficado com aquela marca numa luta contra a natureza, no mar.
  O rosto do capito era impressionante e transmitia um grande 
sofrimento, tanto que na hora nem reparei na perna branca. Sim, a perna feita de osso de cachalote em que ele se apoiava, ao lado da perna real de carne e osso coberta pelas calas.
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  Era interessante o recurso que ele usava para se manter firme e ereto: em cada lado do corredor do passadio haviam entalhado uma reentrncia no cho de madeira, onde ele encaixava a ponta da perna de osso enquanto olhava firme para o mar.
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  A partir desse dia ele pde ser visto diariamente naquele lugar, 
vigiando o mar, como se no percebesse a existncia do convs em que ficvamos todos ns, os simples marinheiros, logo abaixo. O passar do tempo, no entanto, pareceu amenizar seu semblante fechado pela tristeza e pelo mau humor. De vez em quando parecia olhar para ns, e parecia que pouco faltava para que seus lbios formassem um leve sorriso.
  Quando estvamos na altura da linha do equador, ainda longe das 
geleiras e *icebergs* que iramos encontrar ao sul do continente, vieram os dias limpos, as noites estreladas, a temperatura quente refrescada pela brisa do mar -- tudo isso parecia influir sutilmente sobre a disposio do capito Acab. Com isso, ele passou a ficar mais tempo ao ar livre que no camarote.
  Sentado em seu banco, um trip feito de ossos de baleia, a fumar seu cachimbo e a observar as guas e o que ocorria no convs, ele parecia o rei dos mares em seu trono. Um dia, tirou o cachimbo da boca com um ar de impacincia e disse:
  -- Que coisa, fumar no me acalma. O cachimbo no serve para nada. No vou mais fumar.
  E atirou o cachimbo, ainda aceso, no mar. O navio passou sobre as bolhas formadas por ele na gua.
  Acab passou a sair tambm de madrugada. Sentava-se no trip e ali ficava, evitando caminhar, numa mostra inesperada de delicadeza, para no atrapalhar o sono dos marinheiros com o toque-toque da perna de marfim no assoalho de madeira. S os do turno da noite sabiam de sua presena ali. Com o passar do tempo, porm, ele pareceu ter perdido a pacincia, pois certa noite comeou a caminhar ruidosamente para l e para c no passadio.
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  Stubb, o segundo-imediato, dirigiu-se a ele com bastante receio e respeito, pedindo que evitasse a caminhada para no perturbar os que dormiam -- pois, durante o dia, eles precisavam estar bem despertos. Acab respondeu com muito maus modos:
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  -- Quem voc acha que eu sou para me importunar? Desa l para o seu tmulo noturno, para junto daqueles da sua laia, e trate de se acostumar com seu lugar naquela sepultura. Suma daqui, seu cachorro, seu burro!
  Enquanto dizia isso, Acab chegou a dar um pontap com a perna de osso em Stubb, que recuou intimidado. Ao descer as escadas, o imediato ia comentando:
  -- Que velho esquentado! No sei como no respondi, nunca me trataram assim sem que eu respondesse com um soco. Ele deve estar maluco.
  No dia seguinte, Stubb contou o ocorrido a Flask, o terceiro-imediato, acrescentando:
  -- Curioso  que o pontap dele no me incomoda. Penso: no foi com uma perna de verdade que ele me chutou; aquilo no passa de uma perna de mentira,  um brinquedo. Mas escute o que eu digo, Flask:  melhor no se meter com o velho. Nunca se dirija a ele, deixe-o sozinho. Mas o que  que ele est gritando agora?...
  De fato, nesse momento, o capito Acab dizia bem alto, para todos ouvirem:
  -- Ei, vocs a do mastro! E todos os outros! Agucem bem a vista. 
Esta regio tem baleias. Quando virem uma baleia branca, faam tudo para peg-la!

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 7. No topo do mundo

  Stubb formava, com Flask e
 Starbuck, o trio de imediatos do navio. Junto com Acab, ocupavam a mesa principal de refeies do *Pequod*. Uma rgida hierarquia era seguida: Acab era sempre o primeiro a se sentar e o ltimo a sair. Cada imediato seguia tambm sua ordem, sendo Flask o ltimo a descer para a sala e o primeiro a subir para o convs.
  Depois que o capito e os imediatos tinham acabado de comer, o trio 
de arpoadores era admitido a ocupar a mesma mesa. Neste caso, a 
relao era bem mais democrtica: eles no se incomodavam de fazer 
todo tipo de barulho enquanto mastigavam, falavam bastante e pareciam 
devorar o que estava no prato como se estivessem sem comer havia uma 
semana. Quiqueg e
 Tachtego sentavam-se frente a frente, enquanto Dagu, o africano que era o terceiro arpoador, preferia acomodar-se no cho.
  Podemos imaginar a vida do cozinheiro, um sujeito branquela e nervoso que, logo depois de agentar os destemperos de Acab, tinha que correr para alimentar o trio de mortos de fome com o mximo possvel da carne salgada de boi que ficava na despensa. Para apress-lo, Tachtego s vezes lhe atirava um garfo nas costas, com a mesma habilidade com que lanava o arpo, ou Dagu ameaava cort-lo em tiras com a faca, como se fazia com as baleias.
  Enquanto isso, os dias corriam calmos a bordo, at que, pelo 
revezamento previsto, chegou minha vez de subir ao mastro principal de vigia. Subi bem devagar, para sentir melhor o momento de assumir aquela responsabilidade. A partir da,
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sempre que estava l em cima, em algum dos trs mastros de vigia, varrendo as guas e o horizonte com o olhar, eu me sentia no topo do mundo.
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  No entanto, meus pensamentos vagavam de tal modo que, nessa e nas outras vezes em que assumi aquele posto, no consegui me concentrar na obrigao que me era atribuda: Prestar sempre muita ateno e gritar toda vez que avistar alguma coisa. Por isso, a vai meu aviso aos donos de navios baleeiros de Nantucket: cuidado ao contratar rapazes de aparncia sonhadora, magros e de olhos fundos; muito cuidado, pois as baleias tm de ser avistadas antes de serem caadas. Um rapaz afeito s meditaes levar o seu navio a dar dez voltas ao mundo sem avistar uma nica baleia, sem dar a vossas senhorias sequer o lucro de uma gota da preciosa gordura desse animal.
  Sei de um arpoador que fez uma advertncia a um jovem desse tipo, 
dizendo: Escute aqui, seu macaco, j estamos viajando h trs anos e 
voc no avistou uma nica
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 baleia. Parece que baleia no mar  como 
dente em galinha quando voc est de vigia!
  Mas no adiantam advertncias nem repreenses. O jovem distrado parece sonhar quando contempla as guas e os mistrios do oceano. O mar parece, a seus olhos, a alma azul e profunda da terra; nessas horas, o esprito do jovem volta atravs do tempo e do espao para o lugar de onde proveio.
  Um dia, Acab apareceu no convs. Em seu rosto cheio de rugas 
profundas, quase se podia ver o rumo do pensamento. Ele parecia estar to dominado por uma idia fixa que, enquanto caminhava pelo convs, era como se pudssemos ver o pensamento caminhando dentro de seu corpo.
  A certa altura, ele parou, encaixando a ponta da perna de osso num buraco junto  amurada do navio. Apoiando-se no mastro de um ovm, mandou Starbuck chamar toda a tripulao.
  -- Rena todos aqui! Vocs a do topo dos mastros, desam tambm!
  Quando todos estavam perto dele, Acab perguntou:
  -- O que vocs fazem quando avistam uma baleia, marujos?
  -- Gritamos, anunciando a descoberta! -- responderam muitos, quase ao mesmo tempo, com essas ou outras palavras parecidas.
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  -- Excelente! -- continuou
 Acab, parecendo alegre. -- E depois?
  -- Descemos para os escaleres e remamos bem depressa atrs dela, cantando Vamos atrs dela at o fim: ou pegamos a baleia, ou o bote arrebenta assim.
  Acab parecia cada vez mais satisfeito, e ento disse, tirando alguma coisa do bolso:
  -- Todos j ouviram falar na grande baleia, o cachalote branco, no? Esto vendo esta moeda de ouro espanhola? -- Esfregou a moeda na aba do casaco e ergueu-a de frente para o sol, realando o brilho do metal. -- Agora escutem com muita ateno: quem avistar a grande baleia de cabea branca, que tem trs buracos em um lado da cauda, vai ganhar esta moeda de ouro puro.
  Os marinheiros gritaram, efusivos, e agitaram os bons. Apenas os arpoeiros, Tachtego, Dagu e Quiqueg, que pareciam ter ouvido com mais ateno que os outros, sentiram um tremor, como se a referncia  baleia branca lhes trouxesse lembranas desagradveis.
  -- Capito Acab -- perguntou Tachtego --, por acaso essa baleia branca no  o cachalote que chamam de Moby Dick?
  -- Ah, ento voc conhece a tal baleia, Tach? -- gritou Acab.
  --  aquele que tem monte de arpo enfiado na pele, tudo retorcido que nem saca-rolha? -- perguntou Quiqueg.
  -- {... e que quando agita a cauda parece uma vela bujarrona solta, desamarrada na tempestade? -- acrescentou Dagu.
  -- Essa mesma! -- respondeu
 Acab. -- Foi ela prpria que vocs viram.
  -- Capito Acab...
 -- Starbuck tomou a palavra com uma certa 
timidez -- capito
 Acab, acho que j ouvi falar em Moby Dick. No foi 
ela que arrancou a sua perna?...
  -- Quem contou isso a voc? -- perguntou Acab, mas *Starbuck* se 
retraiu, temeroso. O capito continuou: -- Sim, Starbuck, foi Moby 
Dick quem me fez usar esta perna morta que me sustenta hoje. Foi a 
maldita baleia branca! Mas eu vou persegui-la para l do cabo da Boa 
Esperana, do cabo *Horn* e do grande redemoinho da Noruega, nem que 
seja depois do fim do mundo, no fogo do inferno, at que ela esguiche 
o sangue escuro e acabe boiando com as barbatanas para cima.  para
isso que vocs esto neste navio, homens. E agora, todos concordam em perseguir esse objetivo? Creio que todos aqui so homens corajosos e valentes!
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  -- Sim, sim, claro, capito! -- gritavam de todos os lados as vozes dos marinheiros entusiasmados, inclusive os arpoadores. -- Todos de olho na baleia branca!
  S Starbuck ficou de cara fechada, e Acab disse:
  -- Deus abenoe a todos. Cozinheiro, sirva um bom trago de grogue para os marujos. Mas o que h com voc, *Starbuck*? No quer caar o cachalote branco? Por acaso est com medo de Moby Dick?
  -- Pelo contrrio, capito, eu no tenho medo da morte; mas a verdade  que estou aqui para caar baleias, no para satisfazer a sede de vingana do comandante do navio. Vingar-se de um animal irracional... Isso  loucura, capito Acab!
  -- Muito bem, se a questo  s de dinheiro, no se preocupe, voc ser bem pago. Mas escute mais um pouco, Starbuck. Tudo o que ns vemos no passa de um monte de mscaras de papelo. Tudo o que acontece tem uma causa desconhecida, mas que raciocina. A pessoa que est presa precisa atravessar uma parede para sair da cela. Pois bem, o cachalote branco  a minha parede, e eu vou passar por ela. Se o sol me insultasse, eu seria capaz de agredir o prprio sol.  mais difcil agentar o olhar pasmado dos patetas que o olhar penetrante do Diabo. Calma, Starbuck, no fique plido. No tive a inteno de ofender voc. Esquea o assunto e olhe para essas criaturas bronzeadas, cheias de manchas de pele, esses pagos quase selvagens: a tripulao. No se colocaram todos ao lado de Acab nesse assunto do cachalote? Para eles, trata-se simplesmente de pegar a baleia branca, nada mais, Starbuck. Voc ficou constrangido, estou vendo. O seu silncio fala por voc.
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  -- Deus me proteja! Deus proteja a todos ns! -- respondeu o imediato, em voz baixa. Mas Acab estava to eufrico que nem ouviu a resposta.
  Quanto a mim, eu, Ismael, que estou contando esta histria, fazia parte da tripulao da mesma forma que os outros. Assim, meus gritos haviam se juntado aos deles, na promessa de caar a imensa baleia branca. Minha alma, porm, sentia um pavor ntimo. Um sentimento misterioso e solidrio se apossava de mim: o ressentimento de Acab parecia ser meu tambm.

               oooooooooooo

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 8. Moby Dick

  Nos ltimos tempos, embora apenas de vez em quando, o cachalote branco era avistado por outros navios de pesca. Ele nadava solitrio, desacompanhado, ningum tinha coragem de atac-lo. Pouco sabamos do que acontecia pelo mundo, pois quem se aventurava em mares distantes podia passar doze meses sem encontrar mais que um nico veleiro e trocar notcias com ele. Diante disso, eram parcas as informaes confiveis sobre o paradeiro de Moby Dick.
  Os que tinham avistado o grande cachalote branco pela primeira vez 
logo haviam descido para os escaleres, a fim de ca-lo como se fosse 
um cachalote qualquer. No entanto, a reao do animal costumava ser 
to violenta, e as calamidades sofridas pelos baleeiros eram to intensas -- no se tratava simplesmente de tornozelos ou punhos torcidos, mas de pernas e braos fraturados ou amputados, ou mesmo de mortes --, que da segunda vez aqueles que o reconheciam no mar preferiam passar ao largo.
  Por outro lado, os boatos, os rumores, tudo o que se falava de Moby Dick tendia a ser exagerado, a dar um carter ainda mais horripilante a esses encontros fatais. Devido ao contato com os seres mais extraordinrios, os baleeiros se tornaram os mais imaginativos dos homens do mar. Com isso, a mera referncia ao cachalote branco causava pnico a quem sequer o tinha visto mas j ouvira falar nele.
  A maior fantasia que se criou a respeito de Moby Dick foi a da 
ubiqidade, ou seja, a de que ele tinha sido encontrado, no mesmo dia e hora, em dois lugares
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diferentes e muito distantes entre si. Mais que isso, o fato de ele ter sempre escapado vivo a todas as perseguies, causando alm disso muita destruio, levava alguns baleeiros a irem mais longe na crendice, ao afirmar que Moby Dick tambm era imortal -- ou seja, estava presente no s em muitos pontos do espao como tambm em vrios lugares do tempo.
  Na verdade, no era o seu imenso tamanho que o distinguia dos outros cachalotes, mas a cabea branca como a neve, que permitia identific-lo a grande distncia. O resto de seu corpo era listrado; o aspecto brilhante, quando deslizava nas guas ao meio-dia contra o cu azul, realava ainda mais a idia formada pela imaginao diante das palavras cachalote branco. Atrs dele, a esteira de espuma parecia uma via-lctea reluzente com brilhos dourados.
  E o que causava terror, na verdade, no era essa aparncia magnfica, nem o maxilar inferior torto ou a corcova branca. Era a sensao de haver nele uma certa maldade inteligente e sem igual em outros animais, comprovada em cada um de seus ataques. O que mais impressionava eram suas retiradas traioeiras: contava-se que, exatamente quando ele parecia estar cheio de medo, fugindo de seus eufricos perseguidores, felizes porque achavam que finalmente o tinham caado, Moby Dick se virava de repente e, atirando-se sobre os baleeiros, reduzia a lascas os escaleres ou os fazia voltar apavorados para o navio. Isso sem contar os muitos que j tinham morrido na tentativa de captur-lo.
   claro que acidentes desse tipo eram comuns na atividade baleeira, mas no caso do cachalote branco tudo parecia ser executado com tanta premeditao que as mutilaes e mortes passaram a ser atribudas a um ser dotado de inteligncia.
  Anos antes, Moby Dick havia destroado os trs botes em que o 
capito Acab e seus baleeiros tentavam ca-lo. Desvairado,
 Acab tentara atingir o imenso cachalote branco com seu pequeno punhal. Em seguida, Moby Dick, com um golpe da queixada torta, havia decepado a perna de seu perseguidor, da mesma forma que um cortador de grama ceifa um reles talo de capim. Desde ento, Acab alimentava uma raiva cega, um desejo de vingana profundo contra a imensa baleia branca. A loucura do capito, sua ira, era do tamanho de toda a clera acumulada pela humanidade desde os tempos de Ado.
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  Contam que, aps ser salvo e trazido para bordo, Acab precisou ser amarrado com fora durante a viagem de volta, tamanhos eram seus ataques de loucura. Mesmo depois de passados os acessos, sua aparncia era aparentemente calma, mas o aspecto soturno deixava entrever o que se passava dentro dele. Acab delirava  noite, a idia da vingana se tornava monomania, ou seja, uma idia fixa.
  A partir da, sua vida era fingir. Fingir calma, fingir 
tranqilidade -- mas ele fervia por dentro. Os proprietrios do *Pequod* pensavam que haviam contratado um experiente comandante de navio baleeiro e que iriam ter bons lucros com a pesca, mas a realidade era que o capito Acab s se interessava pela perseguio de um nico ser vivo: Moby Dick.

               oooooooooooo

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 9. Homens ao mar

  Enquanto a viagem prosseguia, os marinheiros comearam a ouvir rudos estranhos, que pareciam vir do poro. Ningum imaginava o que poderia ser aquilo.
  O *Pequod* avanava pelos mares, com sua estranha tripulao: um capito de cabelo grisalho, enlouquecido interiormente pelo dio, liderando um amontoado de canibais, renegados e prias de todas as partes do mundo, contando, entre eles, com trs imediatos, ou subchefes: Starbuck com sua honestidade ineficaz, Stubb e sua jovialidade despreocupada, alm de Flask, aquele que no fazia diferena nenhuma. 
  Por uma espcie de fatalidade, todos pareciam unnimes, empolgados 
pela idia de se juntar  vingana doentia de Acab. A raiva do capito parecia ser a deles, o cachalote branco parecia ser igualmente o inimigo de todos -- como isso era possvel? Talvez Moby Dick fosse o smbolo vivo de tudo aquilo que procuramos destruir nos mares de nossa vida interior, tudo aquilo que no podemos reconhecer e aceitar.
  Para entender melhor isso, seria preciso mergulhar ainda mais fundo do que este pobre Ismael  capaz de fazer. Dentro de ns mora um mineiro subterrneo, sempre a escavar os nossos pensamentos; como podemos adivinhar onde ele ir bater com a picareta? Por isso, quanto a mim, eu apenas me deixava levar, sem pensar no tempo nem no lugar. S conseguia ver, no cachalote que tanto espervamos encontrar, a pior das calamidades e a morte.
  Um belo dia, *Tachtego* gritou l do cesto da gvea:
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  -- Um bando de baleias a sotavento, a duas milhas... Agora estou vendo as caudas. So cachalotes! Esto mergulhando!
  Todos ficaram excitados com a novidade. Acab ordenou que rumssemos naquela direo. Algum tempo depois elas teriam de subir novamente para respirar.
  De repente, ouvi algumas exclamaes de surpresa. Todos pararam de olhar para as guas em busca das baleias, pois outra coisa chamava a ateno geral. Acab parecia estar rodeado de cinco fantasmas -- pelo menos davam essa impresso.
  Num instante os cinco vultos comearam a deslizar, geis e 
silenciosos, pelo convs, soltando os cabos e as cordas que prendiam 
o escaler de reserva, que ficava na r do navio e s poderia ser 
usado pelo capito. Das estranhas figuras, o chefe parecia ser um 
homem mais velho, alto e moreno, com dentes que pareciam punhais, 
roupas pretas folgadas e turbante branco. Os outros tinham a pele 
amarelada, manchada como a de um tigre, tpica dos marujos das 
Filipinas, que eram conhecidos pela
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 crueldade. O mistrio dos rudos 
estranhos no poro estava resolvido.
  Enquanto a tripulao se recobrava da surpresa, Acab gritou para o velho de turbante:
  -- Tudo a postos, Fedul?
  -- Tudo certo! -- respondeu o outro, quase num assobio.
  -- Baixem os escaleres! Desam -- ordenou Acab  tripulao. Rapidamente, os trs botes foram baixados e os marinheiros pularam para eles.
  Num instante o quarto escaler surgiu, com os cinco estranhos a 
bordo, remando para perto de onde estava Acab. O capito mandou que 
Starbuck, Stubb e Flask se espalhassem bem com seus botes, para 
cobrir a maior extenso de gua possvel, e desceu para o quarto 
escaler. Todos, no entanto, reagiram lentamente, pois ainda estavam 
de olhos fixos, surpresos, em Fedul e seus ajudantes.
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 Acab gritou 
mais uma vez, insistindo na ordem.
  O bote do capito, demonstrando o vigor dos remadores filipinos, alcanou com rapidez um ponto em que as guas se agitavam levemente. Pequenas lufadas de vapor subiam da superfcie e o ar em volta se mexia um pouco. Os olhos experientes dos baleeiros sabiam enxergar nesses sinais a presena de cetceos a nadar logo
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abaixo. Os outros trs botes, mais lentos, ao saber da novidade, corriam para se juntar a eles.
  -- Remem, rapazes, remem! -- dizia Starbuck baixinho, quase cochichando. Ele no costumava falar com a tripulao, mas os marujos tambm no lhe diziam nada.
  -- Gritem alguma coisa -- esgoelava-se o espalhafatoso Flask. -- Vamos pegar esses bichos! Eu vou dar a vocs a minha roa, com mulher e filhos, se me pegarem essas baleias! Ai, meu Deus, eu ainda vou acabar ficando louco!
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  -- Olhem s para ele! Esse Flask  mesmo uma piada -- dizia Stubb a seus comandados, sossegado e com o cachimbo apagado entre os dentes. -- Calma, pessoal, nada de pressa. Devagar e sempre! Tratem de remar e tudo se consegue.
  J o que Acab dizia aos seus comandados de pele de tigre... No vamos reproduzir aqui, pois vivemos em terra de gente crist e bem-educada.
  Flask continuava:
  -- Vamos, fora! As baleias j esto batendo com a cauda no nosso escaler. -- Os marinheiros, assustados, ficavam com vontade de se virar e olhar para trs para ver se era verdade, mas o medo falava mais alto e tratavam de fugir para a frente o mais rpido possvel.
  Quiqueg e eu estvamos no bote de Starbuck, e logo chegamos quela regio em que a neblina quase no deixava ver os outros botes. No entanto, ouvimos a chegada deles quase em seguida, pois tambm tinham sido bastante velozes.
  Aquele momento causava medo, inspirando temor aos baleeiros mais experientes. As ondas, enormes e agitadas, rugiam ao bater nos escaleres por todos os lados. Parecia que a qualquer momento poderiam cortar qualquer dos botes ao meio. O *Pequod*, aproximando-se vagarosamente em meio  nvoa, como a galinha que vem proteger os pintinhos, dava mais emoo  cena. No h sentimento mais estranho que o vivido pelo marinheiro que pela primeira vez est num bote, em mar encapelado, no centro do crculo em que dever surgir a qualquer momento, inesperadamente, um grande cachalote.
  -- Remem, rapazes -- sussurrava Starbuck. -- Ainda poderemos pegar uma baleia antes da tempestade que se aproxima.
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  Quiqueg, que era o nosso arpoeiro, preparou o disparo. De repente, como se cinqenta elefantes comeassem a rolar na grama, a corcova branca de um cachalote aflorou.
  -- Agora! -- cochichou
 Starbuck. Quiqueg disparou o arpo.
  O bote deu um solavanco brusco, como se a popa estivesse sendo empurrada e a proa tivesse batido bruscamente numa rocha. Nossa vela desabou com forte rudo e os remos escaparam de nossas mos. Quase nos sufocamos no temporal que se formou nas guas: alguma coisa rolava, virando-se debaixo de nosso bote, como se fosse um terremoto.
  Nosso escaler estava alagado. Nadando em redor, pegamos os remos, que haviam escapado. Voltando para bordo, estvamos com gua quase pelos joelhos. O vento aumentava, uivando. As ondas se chocavam com fora. O temporal e a grande baleia, o formidvel cachalote, pareciam uma coisa s.
  Tentamos chamar os outros botes, mas de nada adiantava. Na escurido crescente, perdemos de vista o navio. Os remos, agora, s serviriam como salva-vidas. O cachalote, que apenas havia sido arranhado pelo arpo, j estava longe.
  Totalmente encharcados e tremendo de frio, passamos a noite  
deriva. Quando finalmente raiou o dia, vi Quiqueg colocar a mo em 
concha junto  orelha. Logo ouvimos um rudo distante, um rangido de 
cordas e armaes de velas, que se aproximava pouco a pouco. Uma 
forma grande e escura vinha rom-
 pendo a nvoa espessa, em nossa 
direo.
  Assustados, pulamos para a gua. Em um minuto vimos nosso bote ser atropelado pelo imenso navio, afundando como um toco de pau numa catarata. Nadamos na direo do *Pequod*; o movimento das guas nos jogava contra ele, e o pessoal de bordo logo nos avistou. Jogaram-nos cordas, e fomos puxados para cima logo em seguida. Os outros escaleres haviam desistido da perseguio s baleias quando viram que a tempestade comeava a se desencadear. Todos no navio j nos julgavam perdidos, mas mesmo assim haviam resolvido circular mais um pouco pela rea, a ver se nos encontravam.

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 Fim da Primeira Parte